domingo, 2 de agosto de 2009

Livre Arbítrio

Jesus: Só lhe restou ser dançarino. Viver em graciosos deslizes. Ouvir músicas tristes e se alegrar com isso. Ser solitário, mas ter um par com quem dançar. Receber e dar carinho à meia luz. Olhos nos olhos e não ver o que se faz, só levar e ser levado por um ritmo, uma candência que fala mais alto os sentimentos. Fingir, dissimular e ser aplaudido por esse motivo. Coisa que não seria possível numa vida real. Dar-se as mãos, ter em quem segurar firmemente. É preciso suportar quando se dança. A queda sempre por perto, à espera de um descuido. Sorrir porque alguém sorrirá com ele. Sim, sorrir, ainda que com medo. Encenar qualquer felicidade momentânea. Encerar o chão opaco e brilhar.

Marion: Não foi a única coisa que lhe restou, optou por ser trapezista porque ainda era uma menina que ansiava um mínimo de atenções e também porque morria de medo de altura, de cair, se despedaçar no chão. Era um medo que lhe atraia. Quantas vezes não pensou em se jogar do quinto andar. Mas sentia que ainda tinha algo para viver. Viver em graciosos desatinos, voar, ainda que suspensa por um fio ou dois. Não evitar completamente a multidão, mas tê-la em distância bem medida. Uma cerca entre ela e o mundo alheio que nada lhe dizia. Rodopiar, ter mais que um único homem a suspirar a cada vez que vacilava. Ter mais que um filho somente a contemplá-la e vê-la nas alturas de seus sonhos, livre, leve e quase nua. Coisa que não seria possível numa vida real. Soltar as mãos sem ter ninguem que a prenda. Ser pesada, talvez insuportável e se gostar assim. É preciso que ela se sustente enquanto voa. A queda está por perto, à espera de si mesma, da queda. Sorrir porque alguém sorrirá para ela. Sim, sorrir, ainda que triste. Encenar uma felicidade eterna. Encarar o chão opaco e brilhar.

Testamentos

Um, dois, três e quatro. Isso, um, dois, três e quatro. Repetir cem vezes até memorizar a coreografia. Preciso sair mais cedo, hoje. Marion me aguarda. Sua voz rouca me avisa que ela não está bem. O que ela lhe disse. Nada, mas sei que ela precisa de mim. Sei os motivos que levam uma mulher a perder a voz, ficar rouca. As mulheres são meio loucas. É verdade. É por isso que tenho que correr. Marion não vai bem. Tenho medo que ela se distraia, quem sabe se propositalmente, e venha a cair. Tudo em minha volta sempre cai. Um dom invertido, uma maldição, por certo. Deixe disso, Jesus, você não é Deus.

Jesus ainda não veio. Está sempre atrasado. O que ele pensa que é, Deus. Não vou passar a vida toda esperando por ele. Calma, Marion, você precisa se concentrar. Qualquer desatenção, já viu, faça não. Volte à realidade. Nenhum homem merece tanto. Nem ele, Jesus. Você é mesmo uma santa. Ajeite essas asas. Elas podem atrapalhar seu salto mortal. E dái, eu devia morrer. Logo hoje que eu vou fazer igual a ela, a Marion, em suas asas de desejo. Você está doida. Marion é você. Não, Marion não sou eu. Eu apenas a imito. Eu a vi num filme lindo. Foi por isso que quis ser trapezista. Havia um anjo que se apaixonou por ela. Jesus é um anjo de pessoa. Porque demora, meu Deus. Olha os palhaços. Já estão quase no fim, que triste. Você é a proxima. Boa Sorte.

Anunciação

Hoje não é meu dia de sorte. Já tive alguma. Tenho que correr. Estou com um pressentimento ruim. Não posso perdê-la. Não aguento mais ter que começar tudo de novo. As pessoas detestam e temem o fim. Eu não. O inicio é que me apavora. Esse início que não acaba nunca. Não importa o que tenhamos feito. O quanto já andamos. O princípio está alí, no próximo passo. O passado não me persegue. Ele se adianta querendo atrapalhar meu caminho. Por mais que eu me esforçe para esquecê-lo, ele estará a esperar por mim. O passado reside no futuro. Vou tropeçar nele. A casa está lotada. Minhas pernas tremem. Normal, não estranha, é estréia. Um, dois, três e quatro. Será que vou errar.

Respeitável público. Quem é. Pois bem, respeitável porque o vemos de longe, do alto de nossas ilusões. São todos iguais. Porque ele não grita respeitoso público. Ele sabe que não é. E eu, sou. Nenhum homem jamais me respeitou. Então, não devo merecer. A começar pelo meu pai. Que queime no inferno. Este foi o primeiro a me tratar como se eu fosse um objeto. Dá nojo só de lembrar. Mas confesso que também fico exitada quando penso nisso. Não pensando nele que não sou doente. Mas imagino Jesus me tratando como uma qualquer. Ele me trata tão bem.

Instituições

Nunca imaginei que eu fosse vestir paletó na minha vida. Na verdade, odeio esse tipo de roupa. Faz a gente mentir que é mais importante e pior, acreditar nessa mentira. Tudo bem, é apenas uma fantasia. Nessa hora eu tenho importância para alguém. Vejo essas mulheres me comendo com os olhos. Dá medo, uma mulher quando deseja. Não pelo desejo. Mas pelo fato de que elas não aceitam não como resposta. Não sabem ser rejeitadas. São capazes de tudo. Inclusive de seduzir alguém só para poderem rejeitá-lo depois, antecipadamente. Será que Marion seria capaz. Acho que não. Ela nunca vai me deixar pelo simples motivo de que nunca me amou, de verdade. Isso me dá uma certa tranquilidade. Uma mulher quando ama é um perigo, é capaz de tudo.

Não gosto do jeito como ela fala com ele, meu Jesus. Essa rapariga está procurando encrenca. Ai, quanta raiva. Eu não posso fazer nada, agora. Estou aqui em cima e ela lá, nos fundos. Ele vai chegar e fico até imaginando ela toda solícita pro lado dele. Sempre que ele vem da dança, ela logo lhe toma o chapéu branco, finge cerimônia e, cheia de dentes, convida ele para dançar. Jesus é tão bonzinho. Não sabe dizer não. Mesmo sem graça com as gracinhas dela, ri e ensaia uma contradança. Ela me disse que não gosta de homens. O que facilita tudo porque não querer já é própria a vitória. Também não se afligirá se vier a perdê-lo. Querer demais só atrapalha. Não vê eu aqui, um monte de homens a minha disposição e eu só quero Jesus. É o único que me conhece. Sem ele estou perdida. Jesus é a minha salvação.

Imparidades

Deus queira que eu não me depare com aquela amiga da Marion. Não sou disso, mas se ela vier pra cima de mim, vou ter que ser curto e grosso. Marion, tadinha, insegura, veio me contar que ela não gosta de homem. Mal sabe que eu jamais faria uma coisa dessas. Não quero problemas pra cima de mim. Uma mulher já é problema suficiente. Outra que isso não me surpreende. Nunca conheci mulher que gostasse de homem. Elas precisam, muito diverso de gostar. Eu, no lugar delas, também não gostaria. São pobres, os homens. Principalmente os ricos. São feios, inclusive os bonitos. Belos ficam os que sabem envelhecer com alguma dignidade. Isso se tiverem sorte nesse mundo violento.

Meu homem é tão lindo. Tem cara de galã de televisão. Com esse paletó parace importante. Gosto do jeito desinteressado dele. Não dá valor a dinheiro. Bem que podia. Uma familia precisa de dinheiro. Será que ele quer casar comigo. Nunca tocou no assunto. Também nunca disse que me amava. Eu sei que ele me ama. Se quer casar, isso eu não sei. Não tem cara de homem que junta os trapos. É livre demais. É solitário demais. Se ele não casar comigo eu juro que me atiro daqui de cima. Estou insegura. Será que vou conseguir dar o esperado salto mortal.

Bons frutos

Minha Marion vive voando, com o pensamento nas nuvens. O que passa na cabeça de uma mulher. A vida pode até não ser simples, não é, mas sonhar é negócio arriscado, complica tudo. Tenho os pés no chão. Um, dois, três e quatro. Esse chão está escorregadio. Se Deus não dá asa à cobra, menos dá ao homem. Tudo que eu possuia perdi. Filhos, familia, tudo. Menos respeito que nunca tive. Já veio perdido. Imagina, com a familia que tinha, já nasci condenado. Lembro de mim criança e meu tio dizia: esse aí não se cria. Quem disse que eu queria. Melhor era nem ter vindo a esse mundo. Melhor não. Sou grato por ter conhecido Marion e poder esquecer aquela bandoleira, mal agradecida. Fiz tudo por ela. Até filho, eu lhe fiz. Ela só sabia dizer que eu fazia tudo errado, já era íntima, familar. Marion não se queixa de nada. Só quando eu me atraso. Não acertamos o nosso ritmo. Dois pra lá e dois pra cá. Simples. De olhos fechados.

Estou com vertigem. Respirar fundo. Gosto desse medo de morrer. Sinto-me mais viva. Não rufam os tambores. Não chegou a minha hora. Tenho tempo. Jesus não tarda a chegar. É horrivel esperar. Contudo é sinal que algo está por vir, será Jesus. Uma mulher precisa de um homem. Por isso ela espera. Ontem foi um pesadelo. Trovões e relampagos sem cessar. Fenomenos que nos levam à infância como num passe de mágica. Não fui uma criança feliz. Meus irmãos me batiam, meu pai me molestava, minha mãe dizia que acreditava em todos. Cínica que era, se dizia de paz. Era um inferno. Jesus fala pouco. Virtude de quem sabe o mal que a boca faz. Sinto um frio na boca do estômago. Antes um murro. Silencio Jesus com meus beijos.

Impermanências

Dou um rodopio, agarro sua cintura e puxo ela para perto. Aperto. Respiro fundo. É apenas um corpo de mulher. Provocante, mas não passa de um corpo de mulher, um a mais. Não tenho idade para sucumbir a tais apelos. Mal ou bem, já passei dos quarenta. Não sou mais um menino a correr atrás de saias. Vivia debaixo das saias da minha mãe. Não queria crescer. Querer é poder. Continuo o mesmo menino, quando posso. Estou tão velho.

Vontade de fumar. O suicídio dos covardes. Se eu tivesse coragem era só me jogar daqui de cima. Fingia acidente para não levantar suspeitas e não deixar que Jesus se culpe porque não me salvou. Vivo me exibindo para não revelar quem sou. Sou fraca e essa é minha força, se saber. Tenho a sabedoria de não errar mais que o necessário. Risco calculado. A única coisa que ainda me foge ao controle é o amor. Um dia domino essa mania estúpida de... Um dia serei finalmente a velha que sempre fui. Ela é uma bruxa. Prepara venenos. Para os outros, leva alívio. Para si mesma, doses generosas de toxinas. Não quer sofrer, não. Quer desafiar a morte. Vamos ver quem chega primeiro, senhora morte. Eu vou antes de você vir me buscar. Vai terminar o espetáculo e Jesus não vem me pegar. Para onde será que ele vai me levar. Sinto fome. Queria ir naquele bar peruano, comer ceviche, fumar um charuto cubano, beber um vinho chileno, na falta, serve um argentino, de mendoza, dançar um samba, brasileiro, vestir um sari indiano, usar um perfume francês. Dia de princesa, o mundo inteiro em uma noite. Jesus nas minhas mãos.

Multiplicai-vos

Olha lá, é aquele escritor famoso. Como é mesmo o nome dele. Esta sentando sozinho, na mesa dez. Dizem que escreve bem. Você leu algum livro dele. Não e você, leu. Também nao li. Nao sou muito chegado a leitura. Gosto de cinema. Em duas horas, quando muito, três, a gente vive uma vida inteira. Livros me dão agonia. Não consigo terminar se for bom. Fico lendo e relendo o mesmo capítulo, parágrafo, frase, linha, palavra. Fico inerte. Quero que se repita o que acabei de viver. Que pena. Quer saber quantos livros eu já lí. Dois. O primeiro eu li quando tinha treze anos. Uma droga, li todo no mesmo dia, tinha mais de quinhentas páginas. O que não é bom a gente entorna de uma vez, tem que dar logo um fim. O segundo é ótimo, ainda estou lendo. Comecei há uns vinte anos. É um livro de poemas, fininho. Todo dia leio a primeira frase e paro para ficar pensando nela. Qual é a frase. “Deves andar sempre bêbado”. Essa é a frase. Deixo-me influenciar com muita facilidade. Marion me pediu para largar a leitura. Está acabando com a minha saúde.

Aquele sujeito na terceira fila é o meu irmão. Não estou certa. Está tão longe. Será que veio de novo me pedir dinheiro. Só pode ser. Nunca me visita por outro motivo. Deve ser mais uma coitada que dele engravidou. Já perdi as contas de quantos filhos ele tem e de quantos eu paguei para não ter. Mulher é bicho besta, nunca ví. Acredita em tudo. Não deixo Jesus ficar nu. Ele me cobre, mas antes eu cubro ele. Não quero mais filho. Para que, para criar sozinha e perder minhas noites de sono. Nem pensar. Mas eles são tão lindinhos. O problema é que levam uma vida inteira. Uma beata fofoqueira me disse que Jesus tinha filho espalhado pelo mundo todo. Se tem, ele não fala. Também não vou perguntar. Os homens detestam ser interrogados pelos seus crimes. Os maus ficarão com medo de serem flagrados, o medo os deixa ainda mais traiçoeiros. Os bons ficam aborrecidos, não querem ser obrigados a mentir, e fogem. Devem ser poupados. Aceite o que é bom. O que não for, vai ter que engolir calada, as amarguras são inevitáveis. Vá logo se acostumando. Mulher é bruxa porque desde cedo lhe enchem de chagas. Tem que se inventar unguentos de toda ordem.

Cede sede

Deu sede. Essa música que não acaba. Para que eu fui pensar em poesia. Queria um trago. Marion que se dane. Se ela quer alguém para mandar, que compre um cachorro. Eu não sou cachorro, não. O tal Valdick, apesar de Soriano, era um gênio. Deve ter passado na mão de muita mulher. Tanto quanto Vinicius que dizia: eu quero a mulher que passa. Eu sempre fui burro, desde pequeno. Minha familia toda dizia isso. Acreditava no amor que dura. Nada dura. Mas se Marion me deixar, eu morro sozinho. E quem não morre sozinho. Salvo, se ser for por acidente de carro, de avião, bomba perdida porque bala só mata de um em um. Ou então, suicídio coletivo. Quanto egoísmo querer estar sempre acompanhado, até na morte. Quando daqui eu me for, não quero ir junto de um monte de gente conhecida. Vida, basta uma. Para onde será que a gente vai quando bate as botas. Tenho que comprar novos sapatos. Meus pés estão crescendo. Creio que de tanto dançar e correr, eles estão alongando. O tempo também se estica. Mais quando a gente corre. Tenho pressa. Quero ver Marion.

Enfim louca, enfim livre, enfim solta, enfim leve, enfim quase no fim. Ser mulher é um encenação constante. Depois, tirar a maquiagem, ser outra personagem. A mulher nua e crua. Quando a noite é boa, flores no camarim, Jesus, louco por mim. Estou engordando e sei que meu homem gosta de mulher magra. Ele não fala, mas eu sei porque percebo a cara de nojo que ele faz quando estou comendo esfomeada. Já fui gorda como a Angela, a mulher barbada. Emagreci por vingança. Isso mesmo. Eu queria poder humilhar os homens. Eu viva correndo atrás deles e era sempre desprezada. Aí falei: vou ficar gostosa e faço eles sofrerem. Descobri que para ser feliz é preciso quem alguém sofra por sua causa. E quem melhor sofre é quem leva o prêmio - meu amor, minha compaixão. Jesus sofre por mim. Graças.

En-ganâncias

Não pensar em nada é o estado mais próximo da lucidez. Tudo é bobagem. Cá estou, fingindo seduzir essa mulher que dança comigo. Somos ensinados a ludibriar o tempo. O resto é sofrimento, paixão. Sem isso somos vazios como um livro esquecido na estante. Um poema perdido na gaveta, lixo de vida não vivida. Agradeço por cada fracaso bem sucedido. Marion me foi difícil e isso eu encarava com facilidade. Não estamos prontos para a simplicidade. Perde-se o valor pelo excesso de gratuidade. Vida e mulher que não doem não são vida nem mulher que se prezem.

Já tenho mais de trinta. Não sei por quanto tempo ainda vou aguentar essa vida acrobata. Quero me aposentar. Viver só para Jesus. Lavar suas roupas, passar, cozinhar, assistir TV, pegar uma praia, comprar roupas, ir ao salão, essas coisas que fazem as mulheres quando podem. Pode paracer um sonho mediocre. Eu acho um luxo, isso sim. Quem foi que inventou esse negócio de que mulher tem que ser independente. Ninguem é. Depender é o sonho de toda mulher, garanto. Jesus deita comigo e não dorme. Vela meu pesadelo de ser sozinha.

Mal-dito

Mais um dia que se vai. Gastar a noite para compensar a mentira de ser útil. È por isso que me escondo. Não posso deixar ninguém saber o fiz. Hão de me cobrar algo em troca. Nada fiz porque fiz o que que não faço todo dia. Eu trabalho. Cumpro horários e cumprimentos. Encomprido a ilusão de iludir as horas. Que horas são. Oremos, irmãos. Falta muita farsa para chegar a verdade. O que julgam além das vestes. O que pensam esses juízes entupidos de vaidades. Devem sonhar que cumprem com os seus destinos. Sonham com a mulher que mente e silencia. Gosto de Marion quando me xinga. O verdadeiro amor briga para não viver sozinho. O amor grita aos surdos. Marion não cansa de repetir: Jesus, me ama, porra. Apaga a vela, deita comigo.

Jesus vai se ver comigo. Esse filho da puta não vem. Não sei de sua mãe. Não sei de seu pai. Não sei nada dele. Falam muita besteira por aí. Não dou ouvidos. Será ele órfão ou abandonou pai e mãe para seguir a sua missão. O melhor presente do mundo é o esquecimento. Mas minha família insiste em me lembrar que não lembra de mim quando mais preciso. Um dia cruzei com uma prima. Toda branquinha, maquiada, cabelos alisados, salto alto, roupa de marca. Marca de quem se vendeu barato. Trazia consigo uns filhinhos, da puta também, é claro. Um deles dizia: mamãe, eu quero. Agora não posso, não tenho tempo. Onde anda Maria que não cuida desses pestinhas. Pago essa negrinha para trabalhar. Contratei-a porque mamãe me disse que era limpinha, para cuidar dos meus filhos. Seu papai é rico. Sim, meu filho, ele é rico. É por isso que seu pai não gasta. Senão seria um pobre tão inútil quanto esses tantos por aí afora. Minha prima fingiu que não me reconheceu e me ofereceu um trocado. Uma boa ação, treinada, e me sorriu. Vá com Deus. Onde andará Jesus.

Imaculados

Ne me quitte pas ao fundo. Caldo grosso e cálido. Amo e odeio essa musica. Amor além do amor-próprio. Marion me diz que isso é doentio, pedir para ser a sombra da sombra, nem a própria. Ora, tudo o que dói é saúde. Quem é saudável, não conheço um. Viver é um mal necessário. Feliz entretanto. Saber-se doente, não incurável, é que nos remete a busca incessante da sanidade. Cura doer muito e dura muito a cura. Poder localizar as feridas, tocá-las até ter certeza do que se sente. O diagnóstico é mais preciso assim. Pode ser que seja invisível ou mesmo inexistente o que machuca. Como estar decepado do braço. Ele continua lá, coça, fica dormente, tenta se apoiar em algo. Um amor que não morre. Uma luta contra o luto, a desistência. Tudo o que foi existe. Deus não é que se prove. Mas Ele está aqui, no meio de nós. A solução é a dissolução.

Muita luz ofusca. Como posso ver com tanta claridade. Por isso o treino exaustivo. Até saltar com segurança no escuro. Não é o mesmo que vazio. É ausência de algo, mas pertinência de muito mais que alguma coisa. Acredito no movimento. Impossível, por vezes, crer que um corpo possa mover-se em pleno ar. Não nascemos anjos, mas já temos a presciência da leveza do espírito quando liberto da carne e dos ossos, dos nervos. Estou nervosa hoje mais que o habitual. Sinto a liberdade se aproximando. Uma anunciação: Marion, voe mais alto. Você pode mais que isso. Sou uma mulher, e sou alada portanto. Essas asas só me pesam. Voar é não resistir. O êxito é não hesitar.

Entre-tantos

É muito mais simples do que imaginam, ser o centro das atenções. Basta estar atento e não tropeçar nos pensamentos. Enquanto represento, tenho a oportunidade de não ser. Executo o previsto com se imprevisto fosse. Uma mágica para os leigos nessa arte. Não passa de uma mesmice gestual. Treinar e fazer da mentira uma verdade convicente. Como ele consegue fazer isso. Da mesmissima maneira que se consegue fingir que é sério. Convencer é vencer o que lhe é alheio. Uma fuga bem arquitedada de si mesmo é o segredo. Todos nos aplaudirão de pé o que não revelamos quando sozinhos, deitados sobre os nossos sentimentos. Vejam o meu sorriso estampado. Não vejam o que me chora o não feito. O que poderia e mesmo deveria ter ousado e não ousei. Os amores que desisti, os filhos que não criei e cinicamente lhes dou minhas bençãos: vão em paz, e o Senhor os acompanhe. Vinde a mim as criancinhas. Dançando como um menino, conforme a música. Quanto demora os minutos que antecedem o encontro.

Gislaine se prepara para ser mulher há anos. Desde criança, ensaia vestuários e gestos. Coitada, não teve infância. Roubaram-lhe a espontaneidade, o direito de não ter juízo. Hoje, para ser feliz é preciso perdê-lo. Mas isso gera uma certa culpa, uma falta. Quando ainda não se tem algo, não se sofre a sua inexistência. Não existe. Existir é uma soma de desistências, saldo natural de toda escolha. Gislaine não vendeu o corpo como dizem as más línguas. Tampouco vendeu sua alma. Ela trabalha duro e sua dignidade não deve ser medida pelos seus feitos. Não é ela quem dorme com os estrangeiros e até coxos. Gislaine dorme sozinha e faz companhia estreita aos seus devaneios bem guardados. Podem lhe comprar essa realidade dura de não ter um amor mais gratuito. Mas ninguém lhe compra suas deliciosas ilusões que isso não tem preço. Dizem que é mulher da vida. Digo que Gislaine é mulher dos sonhos.

Mistério da fé

Marion me chamou para ir a missa de um padre que ela conheceu. Iremos domingo, dei minha palavra e daria mais para ver Marion feliz. Daria meu corpo e sangue, minha vida, para salvar Marion. Não sei se ela quer mesmo ser salva, de todo. Tem certo gosto estar a perigo. A certa altura, inevitávelmente, cairemos na graça e o repouso será merecido. Marion sobe mais alto à medida em que larga os pesos dos desejos. Mas cá estamos cumprindo o desígnio de ser gente. Ainda não somos anjos, completamente. Nessa matéria, por mais etérea que pareça, estamos presos ao fio dos sentidos, à terra. É a nossa natureza. Quando Marion voa muito alto, trato logo de segurá-la. Trago-a para junto de mim e peso sobre o seu belo corpo. Pois um homem deve pesar sobre sua amada para que ela não se perca no próprio mistério, insondável seu universo, feminino.

Amanha é domingo, dia em que o silêncio grita. Poucos convivem bem com esse estado. Daí que as praias, lares e todos os lugares se preenchem de barulho. Ninguém que ouvir a própria consciência. Dói só de pensar. Amanhã tem circo. Finjo morte para os que vivem com medo do fim. No fim, nos enganamos com a possibilidade de milagre de sermos imortais. Olha, a Marion cai e não morre. Ninguém morre, meus queridos. A única morte é não viver. Nem sei se isso é mesmo possível. Nunca ousei tamanha proeza. Eu amo. Amor de verdade é eterno e imortal e não é chama. Esse fogo breve é sómente uma flâmula do amor maior que é viver. Gosto do que me queima por dentro e pode ser que seja frio, como esse que sinto a cada pirueta que dou no trapézio. A beleza reside no quase. Não houvesse o erro, vizinho constante e amigo, inexistiria a arte, a perícia dos que não se cabem nem se fazem de rogados. Todo dia é dia de espetáculo, sagrado, mas nem todo dia é digno de aplausos.

Penumbras

Como está a vida lá fora. Vivemos sempre tão encerrados em nossas vidinhas que nada sabemos do que se vai sem a gente. Vai a vida. Ela passa sinuosa e provocante qual Marion. Será Marion, minha vida. Em parte. Saber que parte é essa já é outra estória. Só saberei quando ela não passar de passado. Memória distante dos sentimentos. Aí saberei ao certo e é certo que meu presente se ressinta do que viveu e foi feliz como sou porque foi vivido, sim, com toda intensidade, mas com a ingenuidade típica é necessária dos amantes que julgam durar para sempre as felicidades. E certeza que se tem é que nascem os dias todos, a revelia de nossas vontades. Marion acorda minhas noites, uma luz-veludo a dar estabilidade aos meus passos. Deslizamos ambos em solos distintos. Voamos para longe do plausível. Querer é obra inacabável. Inabalável é a fé e a fome. Vou levar Marion para jantar à meia-luz, melhor se de velas. Amores precisam de alguma sombra para que a mínima luz nos aponte caminhos, mas que também nos escondam dos perigos da lucidez quando em excesso.

Estou cansada de ver tão de cima. Felizes estes presentes que estão a olhar para o alto. Acima de mim, lona. Abaixo, terra e seres indistintos, salvo as cores. O que não é coisa pouca para discriminar os viventes. Não classifico a índole por isso. Acho bonito é o colorido. Também não nego que as crianças são as mais belas. Não me perguntem o por que, porque todos os tons são lindos, a sua maneira. Mas nos pequenos há um lume qualquer que exprime uma alegria inconrruptível. Os adultos vão sendo tingidos conforme as tintas que se lhe dão ao longo da vida. Alguns são translúcidos. Estes são os que chamam por loucos e diferentemente não poderia ser, ser transparênte é de uma insatez sem tamanho. Quando Jesus me olha nos olhos, ele vê tudo o que me vai por dentro. Fico doida com isso de não poder me esconder. Fechos olhos e peço apenas que ele me seja um homem comum, qualquer um, desde que me dê algum sono. Viro-me de bruços para ele. Jesus me possui. Finalmente o repouso dos justos, ou não. O que importa é não pensar demasiado. Afinal, todo sonho é preto-e-branco, dizem. Então, das cores de quando durmo eu nada sei, mas sei que, ao despertar, Jesus me diz que, graças a mim, seu mundo ficou mais azul. Para mim, suspeito ter visto um passarinho esverdeado ou, quem sabe até, cor-de-rosa. Em Jesus, me aninho.

Paraísos prometidos

Em poucos metros quadrados arredondo minha vida. O conforto independe do espaço que nunca basta à alma, uma cá, outra lá no meio do mundo, outra no fim, sem se saber onde começa ou termina o mundo ou mesmo a alma e são tantas, esta aqui que parece ser a minha ou a de Marion que parece ser minha mais, pelo gosto e pela inexistência de milímetros que não nos separam, sendo a minha, a dela e todas que houver, mais que bilhões, incontáveis, todas uma só. Ela se anima, eu me animo. São muitas as posições na íntima sensualidade dos amantes. Brincadeira de inverter papéis. Tem um mundo dentro da gente. Fecho os olhos e me perco do que pensava que via defindo. Enxergo longe, vou cego do olho ilusionista. Vem cá você, mulher que não é Marion e é porque assim quero que seja, em todas amo a mesma. Minha fidelidade é incorruptível, quisera fosse do mesmo modo a felicidade. Marion é loira, morena, ruiva. Dura enquanto durar esse amor que ainda nem chegou. Cabe ao mito ser perpétuo. Tão longe, tão perto. Vem mulher, vou te ensinar a ser a minha Marion. É simples, voe como tivesse asas. Oh, sonha nas alturas. Bendita seja. Seja outra, maldita. Tenha fé. Mover montanhas é brincadeira de crianças. Fazer dançar o homem inflexível que aprendi. Eis o milagre.

Queria dar um presente à Jesus porque homens não são mais que meninos. Esse então, santo como é, menos que milagres não o empolgam. Ele sempre quer o mais amor que não aprendi. Dei-lhe a mulher que sou. Dei-lhes meus medos, coisa que não divido facilmente. Dei-lhe uma santa e uma outra para que lembre que uma mulher é sagrada seja lá como for. Dei-lhe afagos e mimos. Dei-lhe também castigos divinos. Jesus adora ser maculado por mim. Mas sinto que ainda falta algo. Podia lhe dar um filho, homem ou mulher, sempre imagem e semelhança do pai. Prenha, preenchida de Jesus e parir um mundo. Serei, desta vez com jus e muito orgulho, a puta-que-o-pariu! Não pari Jesus e ele tanto viciou no embalo que é dançarino. Sou um seio qual o de Woody Allen afogando meu homem. Ele tem medo, eu sei. Memória ancestral do abandono na cruz. Minha eterna criança, não me vou sem retorno. Espero-te aqui em cima, no paraíso onde a fuga do sono se dispensa.

Calvários

Minha pobre mãezinha. Pobrezinha, Deus a mantenha em lugar seguro que era rica demais. Tanto que não tinha barganha. Seu negócio era não ser, sabendo que era, mas assim era, minha mãe. E melhor desse jeito, não nos cortava as asas. Se urubu me pareço por vezes, não foi urucubaca dela. Minha mãe era limpa e linda, mas não assim, que nem Marion que mãe é mãe, mulher é o que não é, minha mãe. Sofrida. Se por gosto ou destino não vou julgar. Oh, mulher forte. Nesse mundo de fracos, mártires é dado aos homens e suas poucas dores, físicas, quando muito, mais sabem é fazer doer. Já o martírio é para quem sabe, ser mulher, é para quem a tudo suporta, ao próprio homem. Não sei como Marion me aguenta. Ainda quer carregar uma outra criança, primeiro no ventre, depois nos braços, e posteriormente, crescida, mas não o bastante, nos ombros, cruz para o resto da vida. Além de mim. Será que se vale pelo quanto se pesa. O amor vale tudo.

Já vai acabar o show. As crianças pedirão bis sem saber que somos mortais e o que lhes parece mágico, tudo é, para nós é ardua realidade. Seus sorrisos sem malícia pagam, valem mais, eu quem devia lhes pagar por isso. Também lamento a durabilidade das alegrias e alegorias. Somos eternas crianças a reclamar o pouco recreio. O adulto vive o receio desse fim de contentamento sem compromisso. Mas ainda sei que quando chegar ao chão, momento em que me despirei de outras além de mim, Jesus estará a minha espera, a me sorrir. Estenderá suas mãos treinadas em formar pares e harmonias e nossas pegadas não deixarão rastros. Ambos iremos confortavelmente ao colo das ilusões.

Licenças

E até aqui se deu o que dois seres indistintos se deram, en-laçados, como todos, se vertiam em pensares e, como não podia deixar de ser, vestiam alguns pesares, não tanto de lamentos, muito mais do peso que o amor tem e poucos são os que ousam, cada vez mais, ou seja, cada vez menos seres envergam nas costas das suas existências a cruz da paixão. Não é coisa efêmera como dizem por aí. Não somos ascetas e se fossemos, não precisariamos da carne, já seriamos espíritos libertos, desen-cadeados do convívio. A força é justo o que nos prende, e somente assim, presos, é que alcançaremos a liberdade. Independência nunca, é uma morte antecipada, desistência. Submeter-se é o segredo dos altruístas. O egóismo maior é querer gozar sozinho. Marion sabe que sem Jesus não há salvação e mesmo se fosse Jesus qualquer um, desde que íntimo e ao mesmo tempo inalcansável. Saltar sem levar em conta os abismos é o que de mais salutar pode ser concebido, santo até. A própria fecundação é um enterro. Daí velar para que a alma suba a altura do paraíso, vida. Até que aflore, só sabemos que sepultamos a semente, vida. Morrer para nascer, vida. Essa ordem me parece mais plausível. Quanto a Jesus, um homem que sabe dos passos, anda em círculos, nunca o mesmo patamar, muito menos a mesma dança, musicas não se reprisam. Inauguram-se em bem mais que revoluções por minutos. A trapezista e o bailarino estão sozinhos nos seus respectivos ápices, performam sem os aplausos da presivibilidade dos que os assistem. Nada sabemos dos anjos, se felizes com a nossa atuação. Intuimos a partir de uma ética toda nossa. À luz quando em excesso ofusca, dizia Jung. Platão definia que não é a própria que nos cega, e sim, o habito de pouco ver numa quase total ignorância, a pior escuridão. Entre holofotes e penumbras o amor nasce, vigora o espetáculo. Noites e dias, vida e morte, tudo revezes da mesma substância, coisa impalpável não fossem alguns elementos primeiros e primevos. Terra, ar, fogo e água. Tudo physis, matéria indelével da alma. Finda a música. Marion ao alto e Jesus ao chão, mais irreal que nunca, todavia, majestoso. Vai ao encontro de sua mulher. Outro véu de fantasias. A mulher amada é dos mistérios, o maior. Mais um passo e Jesus não está no mesmo lugar. Marion está mais longe que antes. O futuro será sempre o que não se viu. Para isso, escrevo. Para perpetuar, passar, com sorte e à limpo, o que lhes foi passado.

O peso de cada cruz

Vou apressar o passo. Quantas pedras me levarão à Marion. Nem ouso contá-las. Topo todas. E não digo só de pedras, dessas do meio do caminho, isso já disse o poeta e muito mais falou do que não disse. Fica o entendido para o que soube entender. Ouvindo, ouvireis, mas não compreendereis, o profeta Isaías antecipou. Mas eu também não entendi muito bem o que ele quis dizer com isso. De tal maneira é que não falo em demasia. Dia desses, quase verbalizei à Marion que a amava. Contudo, calei porque essa palavra, isso eu aprendi muito bem, deve ser dita com silêncio.

Amar e orar, ninguém obriga. Mas sou grata a Jesus que me ama e ora por mim. Ora se não ama. Ora se não ora. Tanto ora que na hora de deitar ele põe as mãos sobre o rosto e balbucia, parece até latim. E não somente nessas horas. Pego ele, distraído, olhando o céu em solilóquio. Vai ver que fala com o Pai. E ele mesmo já me confessou que pede pela minha vida. Teme minha queda. Mais cedo ou mais tarde, todos cairemos, é o que lhe digo. Mas é aí que vamos às alturas, não é não. Essa estória de descer ao inferno não me convence. Mais baixo que isso, impossível. E certos infernos me são verdadeiros paraísos, principalmente quando me deito com ele. Jesus é um diabinho, faz cada travessura comigo. Nem te conto.

Tempo templo

Marion me diz da veêmencia dos atos como coisa mais consistente que as palavras. As verdades não moram além dos olhos. Ontem mesmo, ela me virou as costas porque não queria dar contas de seu estado latente. Nada disse, a palavra manteve-se imaculada por isso. Seu corpo dissimulou, covardemente, fugindo da febre da entrega que lhe dominava. Cruzo agora com uma criança que me pede auxílio. Ela me pede um trocado para um alimento. Nada lhe respondi, convenci a mim mesmo do não feito, supondo que fosse para comprar drogas. Um outro alimento, de certa forma, ainda que nutra o anseio de morte. Menti-lhe com um silêncio descarado.

Jesus disse que ando a destruir meu corpo, seu templo sagrado onde ele de-mora as nossas noites. Antecipar o fim ou escapar à estada, é o que me fala. Fumo demais. Bebo demais. Amo demais. Jesus pouco sabe desses milagres da displicência. Caso contrário, seria desnecessária a imprevisibilidade dos acontecimentos, tudo se dava conforme as conformidades. Com azar duro mais de cem. Serei outro objeto esquecido nos quartos escuros da rotina. Um cárcere a quem não levam sequer pão e agua. Tubos proteicos que num ensaio de um afeto frio e distante, mumificando quem melhor estaria como memória nos albuns de família. Nem ele, Jesus, estará ao meu lado. Ele está velho desde que eu era apenas uma menina, ainda sou. Ele que seja o viúvo, uma ilha inundada de retratos e fantasias. Não me assutam os fantasmas. Eles me dão pena, isso sim. Eternos condenados aos pensamentos como matéria. Sou etérea, tenho os pés no chão.